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24 de fevereiro de 2012
Batman em Toronto
Comecou como uma brincadeira, mas virou febre! Todo mundo quer tirar foto com o Batman de Toronto!
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12 de fevereiro de 2012
Defesa da honra?
Era uma vez um afegão chamado Mohammed Shafia. Vindo de família de classe média, não chegou a terminar o ensino fundamental, mas esperto e ambicioso, abriu um negócio de eletrônicos que se tornou uma empresa milionária de importação e exportação.
Seu primeiro casamento foi arranjado, como todos os outros em seu país. Infelizmente sua esposa não podia ter filhos, então ele tomou a decisão que qualquer outro afegão tomaria, e se casou com uma segunda mulher, Tooba. Ela tinha 17 anos na data do casamento.
Tiveram 7 filhos, 2 meninos e 5 meninas.
O clima na casa nunca foi muito tranquilo, com as duas esposas disputando a atenção do marido.
Logo veio a guerra civil do Afeganistão, e a família fugiu para os Emirados Árabes Unidos.
Em Dubai as crianças tiveram contato com a cultura ocidental pela primeira vez. Eles frequentaram uma escola americana e conheceram crianças do mundo todo.
Para a primeira esposa, a vida ficava cada vez pior. Sempre humilhada pela segunda esposa, que tinha todas as regalias da casa, se sentia cada vez mais infeliz.
Viveram uma década em Dubai, mas Mohammed Shafia queria morar em um país que lhes proporcionasse cidadania, e não só residência.
Tentaram a Nova Zelândia, mas a primeira esposa, Rona, não passou nos exames médicos.
Chegaram a mudar para a Austrália, mas foram deportados porque o visto que tinham não permitia comprar propriedades.
Em 2007 conseguiram imigrar para o Quebec, com um tipo de visto especial para empresários e investidores, que entre outras coisas, têm que dar um cheque polpudo para a província. Na época o valor era de 400 mil dólares, hoje é de 800 mil.
O único problema era o casamento duplo. Uma violação das leis do Canadá, isso teria impedido a concessão do visto. Rona foi mandada para a Europa, para casa de parentes, enquanto o resto da família se mudava para Montreal.
Compraram uma conjunto comercial em Laval por 2 milhões de dólares, e abriram uma empresa de importação e exportação.
Começaram a construir uma mansão com espaço para todos os membros da família, enquanto moravam em um apartamento alugado.
O que acontecia dentro da casa a partir daí, ninguém sabe ao certo.
Existem as versões da promotoria, e dos advogados de defesa.
De acordo com a acusação, apesar das filhas morarem em um país livre, e não se preocuparem com dinheiro, o pai esperava que elas vivessem sob as mesmas regras e cultura do Afeganistão. Conversar com um garoto que não pertencesse à família era o suficiente para destruir a reputação de todos.
No outono de 2007 a primeira esposa, Rona, chegou ao Canadá com visto temporário, dizendo ser "prima" de Mohammed Shafia.
Esse passava a maior parte do tempo viajando a negócios, e deixava seu filho mais velho, Hamed, encarregado de cuidar da casa e fazer com que as regras fossem cumpridas.
A filha mais velha, Zainab, sabia do que o irmão era capaz e não conversava com outros meninos em público. Uma vez ela convidou um amigo para visitá-la em casa, e quando Hamed descobriu Zainab teve que sair da escola e ficou 10 meses sem sair de seu quarto.
Sahar, a segunda filha, ficava cada vez mais deprimida. Tentou se matar algumas vezes. Em uma delas, bebeu sílica gel com água. Rona e a irmã mais nova correram para ajudar, enquanto sua mãe não saiu da cozinha: "Deixem ela ir para o inferno. Deixem ela se matar.", disse.
Uma agência de assistência social de Quebec recebeu uma ligação em 7 de maio de 2008. Sahar estava na sala do diretor da escola, e chorando contava a todos o que acontecia em sua casa. A assistente social ouviu que a menina queria morrer, mas não sabia como se matar. O caso foi classificado como Código 1, e um funcionário foi mandado à escola.
Chegando lá, a história já tinha mudado. A menina negou tudo. Ela estava com medo da reação dos pais.
Foi o primeiro de muitos pedidos de socorro.
Rona, a primeira esposa, também estava assustada. Usava telefones públicos para ligar para parentes que moravam no exterior, e contava os horrores que aconteciam dentro da casa.
Surras e castigos eram comuns, e por motivos diversos. Comportamento na escola, horários, qualquer coisa era motivo para explosões de raiva do pai e do irmão mais velho.
Sahar arrumou um namorado, e eles se encontravam em segredo. Só sua irmã mais velha e Geeti, outra irmã agora com 13 anos de idade, sabiam.
Zainab fugiu de casa em Abril de 2009, e foi para um abrigo de mulheres.
Para o pai, essa era a traição máxima. Sua filha estava sozinha, sem supervisão. Ela podia estar fazendo sexo, e mesmo se não estivesse, as pessoas poderiam pensar que estava, o que era tão ruim quanto se ela estivesse realmente fazendo.
Nesse dia Hamed ligou para a polícia, e seus irmãos, com medo da reação do pai, foram para a casa de amigos e ligaram para a polícia de lá.
A policial encontrou os meninos na esquina, com medo de voltar pra casa. Entrevistou todos individualmente, e Geeti contou que na semana anterior tinha apanhado do pai, com puxões de cabelo e um soco no rosto. Ela tembém disse que o pai, com frequencia, a ameaçava de morte. Sahar e Geeti disseram que queriam sair de casa, porque havia muita violência e tinham muito medo do pai.
Zainab ainda estava no abrigo, quando um dia Rona ouviu uma conversa de Mohammed Shafia com Hamed e Tooba. "Eu vou para o Afeganistão. Vou preparar meus documentos, vender minha propriedade, e matar Zainab."
"E a outra?" "Vou matá-la também."
Zainab conheceu um rapaz paquistanês, e os dois resolveram casar. Casaram e se separaram no mesmo dia, sob pressão da mãe, que não aceitava a união.
Algumas semanas depois, a família saiu de férias. Foram a Niagara Falls, e na volta pararam em um Motel em Kingston para dormir.
No dia seguinte o carro da família, com Rona (primeira esposa), Zainab, Sahar e Geeti, foi encontrado dentro do lago, e as quatro mortas.
No começo a polícia achou que era um acidente, mas depois as peças começaram a se encaixar.
Os corpos tinham marca de uma pancada na cabeça. O carro de Hamed estava com o farol quebrado e o pára-choque dianteiro amassado.
Com um mandado judicial, colocaram escuta no carro de Mohammed e apreenderam o computador da família. Descobriram pesquisas no Google que mostravam como planejaram o assassinato: "montanhas canadenses com lago em Quebec", "alugar um barco em Montreal", "documentários sobre assassinatos", "um prisioneiro pode ter controle sobre seus bens", "onde cometer um assassinato".
Com os dados do celular de Sahar, conseguiram refazer todo o trajeto da viagem, e paradas.
Acharam pedaços do farol do carro de Hamed no local onde o carro com os corpos caiu.
A polícia, logo depois, prendeu Mohammed Shafia, Tooba (segunda esposa e mãe das meninas) e Hamed (filho mais velho).
O julgamento começou no final do ano passado, e acabou há uma semana.
Negaram até o fim, apesar dos depoimentos conflitantes.
Os três foram condenados a 25 anos de prisão, sem direito a liberdade condicional. Quando saírem, serão imediatamente deportados, porque são imigrantes, e não cidadãos canadenses.
O promotor deu uma declaração marcante ao final do julgamento. Disse que é difícil conceber um crime mais odiável, desprezível, e sem honra. A razão aparentes por trás desse assassinato a sangue frio foi que as quatro vítimas ofenderam uma noção distorcida de honra, fundamentada na dominação e controle das mulheres. Uma noção doente de honra que não tem lugar em uma sociedade civilizada.
Uma história triste, com final mais triste ainda. Os outros filhos mais novos estão morando com famílias adotivas, e crescerão sem a presença do pai ou da mãe.
As meninas pediram ajuda tantas vezes, e ninguém conseguiu imaginar que a situação era tão séria, que realmente havia risco de morte.
Espero que depois dessa história horrorosa os casos parecidos que devem acontecer aqui no Canadá todos os dias sejam tratados de maneira diferente.
(informações retiradas revista Macleans)
Seu primeiro casamento foi arranjado, como todos os outros em seu país. Infelizmente sua esposa não podia ter filhos, então ele tomou a decisão que qualquer outro afegão tomaria, e se casou com uma segunda mulher, Tooba. Ela tinha 17 anos na data do casamento.
Tiveram 7 filhos, 2 meninos e 5 meninas.
O clima na casa nunca foi muito tranquilo, com as duas esposas disputando a atenção do marido.
Logo veio a guerra civil do Afeganistão, e a família fugiu para os Emirados Árabes Unidos.
Em Dubai as crianças tiveram contato com a cultura ocidental pela primeira vez. Eles frequentaram uma escola americana e conheceram crianças do mundo todo.
Para a primeira esposa, a vida ficava cada vez pior. Sempre humilhada pela segunda esposa, que tinha todas as regalias da casa, se sentia cada vez mais infeliz.
Viveram uma década em Dubai, mas Mohammed Shafia queria morar em um país que lhes proporcionasse cidadania, e não só residência.
Tentaram a Nova Zelândia, mas a primeira esposa, Rona, não passou nos exames médicos.
Chegaram a mudar para a Austrália, mas foram deportados porque o visto que tinham não permitia comprar propriedades.
Em 2007 conseguiram imigrar para o Quebec, com um tipo de visto especial para empresários e investidores, que entre outras coisas, têm que dar um cheque polpudo para a província. Na época o valor era de 400 mil dólares, hoje é de 800 mil.
O único problema era o casamento duplo. Uma violação das leis do Canadá, isso teria impedido a concessão do visto. Rona foi mandada para a Europa, para casa de parentes, enquanto o resto da família se mudava para Montreal.
Compraram uma conjunto comercial em Laval por 2 milhões de dólares, e abriram uma empresa de importação e exportação.
Começaram a construir uma mansão com espaço para todos os membros da família, enquanto moravam em um apartamento alugado.
O que acontecia dentro da casa a partir daí, ninguém sabe ao certo.
Existem as versões da promotoria, e dos advogados de defesa.
De acordo com a acusação, apesar das filhas morarem em um país livre, e não se preocuparem com dinheiro, o pai esperava que elas vivessem sob as mesmas regras e cultura do Afeganistão. Conversar com um garoto que não pertencesse à família era o suficiente para destruir a reputação de todos.
No outono de 2007 a primeira esposa, Rona, chegou ao Canadá com visto temporário, dizendo ser "prima" de Mohammed Shafia.
Esse passava a maior parte do tempo viajando a negócios, e deixava seu filho mais velho, Hamed, encarregado de cuidar da casa e fazer com que as regras fossem cumpridas.
A filha mais velha, Zainab, sabia do que o irmão era capaz e não conversava com outros meninos em público. Uma vez ela convidou um amigo para visitá-la em casa, e quando Hamed descobriu Zainab teve que sair da escola e ficou 10 meses sem sair de seu quarto.
Sahar, a segunda filha, ficava cada vez mais deprimida. Tentou se matar algumas vezes. Em uma delas, bebeu sílica gel com água. Rona e a irmã mais nova correram para ajudar, enquanto sua mãe não saiu da cozinha: "Deixem ela ir para o inferno. Deixem ela se matar.", disse.
Uma agência de assistência social de Quebec recebeu uma ligação em 7 de maio de 2008. Sahar estava na sala do diretor da escola, e chorando contava a todos o que acontecia em sua casa. A assistente social ouviu que a menina queria morrer, mas não sabia como se matar. O caso foi classificado como Código 1, e um funcionário foi mandado à escola.
Chegando lá, a história já tinha mudado. A menina negou tudo. Ela estava com medo da reação dos pais.
Foi o primeiro de muitos pedidos de socorro.
Rona, a primeira esposa, também estava assustada. Usava telefones públicos para ligar para parentes que moravam no exterior, e contava os horrores que aconteciam dentro da casa.
Surras e castigos eram comuns, e por motivos diversos. Comportamento na escola, horários, qualquer coisa era motivo para explosões de raiva do pai e do irmão mais velho.
Sahar arrumou um namorado, e eles se encontravam em segredo. Só sua irmã mais velha e Geeti, outra irmã agora com 13 anos de idade, sabiam.
Zainab fugiu de casa em Abril de 2009, e foi para um abrigo de mulheres.
Para o pai, essa era a traição máxima. Sua filha estava sozinha, sem supervisão. Ela podia estar fazendo sexo, e mesmo se não estivesse, as pessoas poderiam pensar que estava, o que era tão ruim quanto se ela estivesse realmente fazendo.
Nesse dia Hamed ligou para a polícia, e seus irmãos, com medo da reação do pai, foram para a casa de amigos e ligaram para a polícia de lá.
A policial encontrou os meninos na esquina, com medo de voltar pra casa. Entrevistou todos individualmente, e Geeti contou que na semana anterior tinha apanhado do pai, com puxões de cabelo e um soco no rosto. Ela tembém disse que o pai, com frequencia, a ameaçava de morte. Sahar e Geeti disseram que queriam sair de casa, porque havia muita violência e tinham muito medo do pai.
Zainab ainda estava no abrigo, quando um dia Rona ouviu uma conversa de Mohammed Shafia com Hamed e Tooba. "Eu vou para o Afeganistão. Vou preparar meus documentos, vender minha propriedade, e matar Zainab."
"E a outra?" "Vou matá-la também."
Zainab conheceu um rapaz paquistanês, e os dois resolveram casar. Casaram e se separaram no mesmo dia, sob pressão da mãe, que não aceitava a união.
Algumas semanas depois, a família saiu de férias. Foram a Niagara Falls, e na volta pararam em um Motel em Kingston para dormir.
No dia seguinte o carro da família, com Rona (primeira esposa), Zainab, Sahar e Geeti, foi encontrado dentro do lago, e as quatro mortas.
No começo a polícia achou que era um acidente, mas depois as peças começaram a se encaixar.
Os corpos tinham marca de uma pancada na cabeça. O carro de Hamed estava com o farol quebrado e o pára-choque dianteiro amassado.
Com um mandado judicial, colocaram escuta no carro de Mohammed e apreenderam o computador da família. Descobriram pesquisas no Google que mostravam como planejaram o assassinato: "montanhas canadenses com lago em Quebec", "alugar um barco em Montreal", "documentários sobre assassinatos", "um prisioneiro pode ter controle sobre seus bens", "onde cometer um assassinato".
Com os dados do celular de Sahar, conseguiram refazer todo o trajeto da viagem, e paradas.
Acharam pedaços do farol do carro de Hamed no local onde o carro com os corpos caiu.
A polícia, logo depois, prendeu Mohammed Shafia, Tooba (segunda esposa e mãe das meninas) e Hamed (filho mais velho).
O julgamento começou no final do ano passado, e acabou há uma semana.
Negaram até o fim, apesar dos depoimentos conflitantes.
Os três foram condenados a 25 anos de prisão, sem direito a liberdade condicional. Quando saírem, serão imediatamente deportados, porque são imigrantes, e não cidadãos canadenses.
O promotor deu uma declaração marcante ao final do julgamento. Disse que é difícil conceber um crime mais odiável, desprezível, e sem honra. A razão aparentes por trás desse assassinato a sangue frio foi que as quatro vítimas ofenderam uma noção distorcida de honra, fundamentada na dominação e controle das mulheres. Uma noção doente de honra que não tem lugar em uma sociedade civilizada.
Uma história triste, com final mais triste ainda. Os outros filhos mais novos estão morando com famílias adotivas, e crescerão sem a presença do pai ou da mãe.
As meninas pediram ajuda tantas vezes, e ninguém conseguiu imaginar que a situação era tão séria, que realmente havia risco de morte.
Espero que depois dessa história horrorosa os casos parecidos que devem acontecer aqui no Canadá todos os dias sejam tratados de maneira diferente.
(informações retiradas revista Macleans)
5 de fevereiro de 2012
Hold and Secure
Terça fui buscar o buguzinho na escola, e como ele fica no day care eu geralmente uso a saída que fica atrás da escola.
Chegando lá, um pouco depois do horário de término das aulas, uma professora abriu uma fresta da porta e me pediu pra usar a entrada principal, porque eles estavam em uma "Hold and Secure Situation" (segurem e protejam, em uma tradução bem tosca).
Na hora a primeira coisa que me veio à cabeça foi que o surto de catapora (mais de vinte crianças doentes até a segunda feira) tinha saído do controle.
Perguntei, mas a professora me disse que era um problema relacionado com segurança, mas nenhuma criança estava em perigo.
Minha mente brasileira condicionada a pensar sempre no pior cenário possível já começou a imaginar as coisas mais absurdas possíveis: briga com faca, sequestrador, assassino, tudo de ruim que se possa imaginar.
Dei a volta correndo, e na frente da escola já havia vários pais e uma outra professora, que veio conversar comigo. Ela disse que uma ex aluna estava ao lado de uma saída secundária, e como ela estava muito nervosa os funcionários bloquearam aquela porta para que niguém saísse por ali, pelo menos até que essa ex aluna se acalmasse e saísse de lá.
A mãe da garota já tinha chegado e estava conversando com os policiais que estavam no estacionamento. Havia duas (!) viaturas, e dois policiais.
Vi a menina, e mesmo de longe consegui vê-la chorando muito. Soluçava incontrolavelmente. Ela parou de estudar no final do ano passado, não sei por qual motivo, e queria voltar.
Logo depois os alunos que pegam o ônibus escolar começaram a sair, e iam correndo (!!!) para os ônibus, que estavam estacionados na frente, perto dos policiais, e longe da menina.
Consegui ouvir alguns alunos conversando, e um disse para o outro: "acho que houve um assassinato na escola, olha só quanto carro de polícia!".
Uns 10 minutos depois consegui entrar, peguei o buguzinho, e fomos embora.
A menina estava abraçada à mãe, sem chorar, e conversava com os policiais.
Enquanto conversava com a professora que estava dando informações do lado de fora, ela se lamentava dizendo que as coisas tinham mudado muito nos últimos anos. Quando ela começou a dar aulas, em 1998, as escolas não trancavam as portas, hoje ficam todas trancadas no horário de aula.
Fiquei pensando comigo que isso não é nada. Nada mesmo.
Antes das aulas começarem os alunos ficam brincando no pátio sozinhos, com uma ou duas professoras pra monitorar. Não tem muro, grade ou portão.
Na hora do intervalo são duas professoras pra tomar conta de todas as crianças que ficam brincando do lado de fora, no mesmo pátio completamente aberto.
Os sapatos de inverno ficam no corredor, e permanecem por lá o inverno todo. Ninguém leva pra casa, e nunca somem.
A caixa de achados e perdidos vive lotada de roupas, que ninguém pega "por engano".
Nunca sumiu nada do buguzinho, nem um lápis.
Essa é uma escola que fica em uma cidade com 5 milhões de habitantes, a maior do país. Imagino como devem ser as escolas de cidades pequenas.
Ainda existe um longuíssimo caminho até que as coisas piorem.
Chegando lá, um pouco depois do horário de término das aulas, uma professora abriu uma fresta da porta e me pediu pra usar a entrada principal, porque eles estavam em uma "Hold and Secure Situation" (segurem e protejam, em uma tradução bem tosca).
Na hora a primeira coisa que me veio à cabeça foi que o surto de catapora (mais de vinte crianças doentes até a segunda feira) tinha saído do controle.
Perguntei, mas a professora me disse que era um problema relacionado com segurança, mas nenhuma criança estava em perigo.
Minha mente brasileira condicionada a pensar sempre no pior cenário possível já começou a imaginar as coisas mais absurdas possíveis: briga com faca, sequestrador, assassino, tudo de ruim que se possa imaginar.
Dei a volta correndo, e na frente da escola já havia vários pais e uma outra professora, que veio conversar comigo. Ela disse que uma ex aluna estava ao lado de uma saída secundária, e como ela estava muito nervosa os funcionários bloquearam aquela porta para que niguém saísse por ali, pelo menos até que essa ex aluna se acalmasse e saísse de lá.
A mãe da garota já tinha chegado e estava conversando com os policiais que estavam no estacionamento. Havia duas (!) viaturas, e dois policiais.
Vi a menina, e mesmo de longe consegui vê-la chorando muito. Soluçava incontrolavelmente. Ela parou de estudar no final do ano passado, não sei por qual motivo, e queria voltar.
Logo depois os alunos que pegam o ônibus escolar começaram a sair, e iam correndo (!!!) para os ônibus, que estavam estacionados na frente, perto dos policiais, e longe da menina.
Consegui ouvir alguns alunos conversando, e um disse para o outro: "acho que houve um assassinato na escola, olha só quanto carro de polícia!".
Uns 10 minutos depois consegui entrar, peguei o buguzinho, e fomos embora.
A menina estava abraçada à mãe, sem chorar, e conversava com os policiais.
Enquanto conversava com a professora que estava dando informações do lado de fora, ela se lamentava dizendo que as coisas tinham mudado muito nos últimos anos. Quando ela começou a dar aulas, em 1998, as escolas não trancavam as portas, hoje ficam todas trancadas no horário de aula.
Fiquei pensando comigo que isso não é nada. Nada mesmo.
Antes das aulas começarem os alunos ficam brincando no pátio sozinhos, com uma ou duas professoras pra monitorar. Não tem muro, grade ou portão.
Na hora do intervalo são duas professoras pra tomar conta de todas as crianças que ficam brincando do lado de fora, no mesmo pátio completamente aberto.
Os sapatos de inverno ficam no corredor, e permanecem por lá o inverno todo. Ninguém leva pra casa, e nunca somem.
A caixa de achados e perdidos vive lotada de roupas, que ninguém pega "por engano".
Nunca sumiu nada do buguzinho, nem um lápis.
Essa é uma escola que fica em uma cidade com 5 milhões de habitantes, a maior do país. Imagino como devem ser as escolas de cidades pequenas.
Ainda existe um longuíssimo caminho até que as coisas piorem.
31 de janeiro de 2012
24 de dezembro de 2011
14 de dezembro de 2011
Amor e ódio
O inglês tem algumas sutilezas que o português não tem.
Uma delas é o uso dos verbos "love" e "hate".
Em português, se gostamos muito de alguma coisa, usamos o verbo adorar. Em inglês o equivalente seria o "love". "Adore", mais parecido foneticamente com adorar, é quase uma veneração pela coisa amada, com o uso restrito a situações muito especiais. Se você adora cachorros, em inglês diria "I love dogs", e não "I adore dogs", que soaria muito estranho, como se cachorros fossem deuses.
Outra diferença é o uso do verbo odiar, ou "hate". Em português usamos o tempo todo, nas situações mais corriqueiras, como se não fosse nada demais. Quantas vezes já disse que odeio cigarro? Traduzindo literalmente a frase seria "I hate cigarettes". Só que em inglês, quando você usa esse verbo, o sentido é muito mais forte. É como se você não gostasse de cigarros e eles te fizesse ficar com raiva, nervoso, e não gostasse de falar sobre o assunto. Usar "hate" é pedir pra encerrar a conversa. O ideal seria dizer "I don´t like cigarettes", e pronto.
Uma delas é o uso dos verbos "love" e "hate".
Em português, se gostamos muito de alguma coisa, usamos o verbo adorar. Em inglês o equivalente seria o "love". "Adore", mais parecido foneticamente com adorar, é quase uma veneração pela coisa amada, com o uso restrito a situações muito especiais. Se você adora cachorros, em inglês diria "I love dogs", e não "I adore dogs", que soaria muito estranho, como se cachorros fossem deuses.
Outra diferença é o uso do verbo odiar, ou "hate". Em português usamos o tempo todo, nas situações mais corriqueiras, como se não fosse nada demais. Quantas vezes já disse que odeio cigarro? Traduzindo literalmente a frase seria "I hate cigarettes". Só que em inglês, quando você usa esse verbo, o sentido é muito mais forte. É como se você não gostasse de cigarros e eles te fizesse ficar com raiva, nervoso, e não gostasse de falar sobre o assunto. Usar "hate" é pedir pra encerrar a conversa. O ideal seria dizer "I don´t like cigarettes", e pronto.
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11 de dezembro de 2011
Sobre mim
Ultimamente tenho tido menos vontade de me expor aqui. Talvez porque tenho visto muito comentário mal educado em outros blogs por aí (apesar de não ter passado por isso, ainda! :-))), ou porque ando meio cansada de ver tanta exposição da vida pessoal. Não ando nem lendo nem o que acontece no facebook, e se antigamente checava as visitas do blog todos os dias, ultimamente tenho feito isso uma vez por semana.
Hoje vi uma brincadeira que resolvi fazer, porque não é tão pessoal assim... E em inglês, mas dá pra entender pela resposta:
A. Age: tem que responder? Digamos que já passei dos 30...
B. Bed size: Queen, mas parece tão pequena!
C. Chore that you hate: Lavar louça e esvaziar a secadora de roupas.
D. Dogs: A primeira foi uma boxer chamada Xuxa, depois uma poodle chamada Vicky, um poodle chamado Billy, e a última foi uma beagle chamada Sofia. Ela ficou no Brasil e adotou meu sogro como dono. Na última visita que fizemos ao Brasil ela mal me olhou...
E. Essential start to your day: Checar meu email.
Favourite color: Cada mês é uma diferente! Esse mês é azul.
G. Gold or Silver: nenhum dos dois, bijouteria mesmo.
H. Height: 1,68m
I. Instruments you play: Pula essa.
J. Job title: ESL teacher, Head teacher, TESOL trainer.
K. Kids: Vinícius, 6 anos, a.k.a. toothless.
L. Live: Atualmente Toronto, mas já morei em Passos (MG), Unaí (MG), Ribeirão Preto (SP), Belo Horizonte (MG) e São José dos Campos (SP).
M. Mother’s name: Alba
N. Nicknames: nenhum... Nossa, que frustrante...
O. Overnight hospital stays: Quando o Vinícius nasceu. Primeira e última vez.
P. Pet peeve: Aluno que faz pergunta completamente fora do contexto no meio de uma explicação.
Q. Quote from a movie: Pode ser de seriado? "I wish I could, but I don´t want to." Phoebe Buffay, Friends
R. Right or left handed: destra
S. Siblings: 1 irmã, Larissa
T. Time you wake up: 5:50 de segunda a sexta, por volta das 7 nos finais de semana. Pro Vinícius não faz diferença se é segunda ou domingo. :-(
U. Underwear: algodão, sempre.
V. Vegetable you hate: jiló e quiabo.
W. What makes you run late: Ficar no computador enrolando, e ter que pedir 1000 vezes por Vinícius colocar a roupa.
X. X-Rays you’ve had: Do tórax, pro processo de visto pro Canadá.
Y. Yummy food that you make: Lasagna, carne de panela com molho de vinho tinto, creme de cupuaçu!
Z. Zoo animal: Peixes, peixes, peixes.
Hoje vi uma brincadeira que resolvi fazer, porque não é tão pessoal assim... E em inglês, mas dá pra entender pela resposta:
A. Age: tem que responder? Digamos que já passei dos 30...
B. Bed size: Queen, mas parece tão pequena!
C. Chore that you hate: Lavar louça e esvaziar a secadora de roupas.
D. Dogs: A primeira foi uma boxer chamada Xuxa, depois uma poodle chamada Vicky, um poodle chamado Billy, e a última foi uma beagle chamada Sofia. Ela ficou no Brasil e adotou meu sogro como dono. Na última visita que fizemos ao Brasil ela mal me olhou...
E. Essential start to your day: Checar meu email.
Favourite color: Cada mês é uma diferente! Esse mês é azul.
G. Gold or Silver: nenhum dos dois, bijouteria mesmo.
H. Height: 1,68m
I. Instruments you play: Pula essa.
J. Job title: ESL teacher, Head teacher, TESOL trainer.
K. Kids: Vinícius, 6 anos, a.k.a. toothless.
L. Live: Atualmente Toronto, mas já morei em Passos (MG), Unaí (MG), Ribeirão Preto (SP), Belo Horizonte (MG) e São José dos Campos (SP).
M. Mother’s name: Alba
N. Nicknames: nenhum... Nossa, que frustrante...
O. Overnight hospital stays: Quando o Vinícius nasceu. Primeira e última vez.
P. Pet peeve: Aluno que faz pergunta completamente fora do contexto no meio de uma explicação.
Q. Quote from a movie: Pode ser de seriado? "I wish I could, but I don´t want to." Phoebe Buffay, Friends
R. Right or left handed: destra
S. Siblings: 1 irmã, Larissa
T. Time you wake up: 5:50 de segunda a sexta, por volta das 7 nos finais de semana. Pro Vinícius não faz diferença se é segunda ou domingo. :-(
U. Underwear: algodão, sempre.
V. Vegetable you hate: jiló e quiabo.
W. What makes you run late: Ficar no computador enrolando, e ter que pedir 1000 vezes por Vinícius colocar a roupa.
X. X-Rays you’ve had: Do tórax, pro processo de visto pro Canadá.
Y. Yummy food that you make: Lasagna, carne de panela com molho de vinho tinto, creme de cupuaçu!
Z. Zoo animal: Peixes, peixes, peixes.
4 de dezembro de 2011
Curling (aquele esporte de enxugar o gelo...)
Perto da casa do Ricardo em Montreal tem um clube de curling, aquele esporte que a gente vê nas olimpíadas de inverno e não entende como tem gente que gosta.
Ontem fomos conhecer. Eram umas 5 da tarde, e tinha bastante gente jogando.
Um funcionário do local nos contou que o clube tem mais de 500 sócios (!), e apesar do local ser de propriedade da prefeitura, quem cuida é uma associação privada. Eles alugaram por 1 dólar, pelo período de 99 anos, com a condição de deixar o local em bom estado de conservação.
Sábado à noite eles tem um evento especial, onde qualquer pessoa pode pagar 10 dólares pra jogar e depois todos sobem para o salão de festas pra fazer um lanche.
Em vez de ficar sozinho em casa, ou assistindo televisão, é só ir pra lá, se divertir com várias outras pessoas que moram no bairro, bate papo, e se exercita um pouco.
24 de novembro de 2011
Bomba!
Há duas semanas o prédio principal da escola onde trabalho foi evacuado porque acharam um pacote suspeito no nosso andar!!!
São uns 15 andares no prédio, e todo mundo teve que sair.
Veio polícia, bombeiro, paramédico, a SWAT daqui, esquadrão anti bomba, enfim, procedimento padrão exagerado da polícia daqui, que tá meio sem ter o que fazer e aproveita que tem muito paranóico nessa cidade pra mostrar serviço.
No final das contas o pacote não tinha nada.
Nós estamos acostumados a conviver com pessoas de todas nacionalidades, mas quem não está deve ficar assustado quando vê Palestino, Israelense, Árabe, Iemenita, e Iraniano junto.
Já disse e repito: esse meu trabalho não é super emocionante?!?
São uns 15 andares no prédio, e todo mundo teve que sair.
Veio polícia, bombeiro, paramédico, a SWAT daqui, esquadrão anti bomba, enfim, procedimento padrão exagerado da polícia daqui, que tá meio sem ter o que fazer e aproveita que tem muito paranóico nessa cidade pra mostrar serviço.
No final das contas o pacote não tinha nada.
Nós estamos acostumados a conviver com pessoas de todas nacionalidades, mas quem não está deve ficar assustado quando vê Palestino, Israelense, Árabe, Iemenita, e Iraniano junto.
Já disse e repito: esse meu trabalho não é super emocionante?!?
17 de novembro de 2011
Quatro anos
Dia 11 completamos 4 anos morando aqui.
Não li o que escrevi ano passado, mas devo ter falado sobre o tanto que nossa vida mudou nesses anos.
Então hoje vou falar sobre algumas mudanças que provavelmente não escrevi antes:
- não guardo mais livros. Leio e faço uma doação pra biblioteca. Simples assim. Só guardo livros de receitas, e alguns em português que ganhei. Ganham a biblioteca, os usuários, e minha casa, que ganha espaço e perde uma fonte de pó;
- desencanei completamente, se é que tinha como ser mais desencanada, com minha casa. Ainda me estresso com sujeira, mas com bagunça, nem pensar;
- desencanei com comida. Arroz de três dias é novo, repito o mesmo prato no jantar e no almoço, como qualquer coisa. Adoro a sensação de saber que posso morar em qualquer lugar do mundo e a comida não vai ser problema;
- aprendi sobre várias culturas diferentes da brasileira, e continuo aprendendo todos os dias a respeitar o que é diferente;
- aprendi a valorizar o verão;
- aprendi a me divertir no inverno;
- aprendi a amar o outono.
É muita mudança externa, mas a interna é maior ainda.
Estou realizada profissionalmente, e vi que isso é uma parte importante mas pequena da nossa vida. Não pode ser o objetivo.
Mudar de país dá sensação de não estar presa a lugar algum, mas de se tornar cidadã do mundo.
Não li o que escrevi ano passado, mas devo ter falado sobre o tanto que nossa vida mudou nesses anos.
Então hoje vou falar sobre algumas mudanças que provavelmente não escrevi antes:
- não guardo mais livros. Leio e faço uma doação pra biblioteca. Simples assim. Só guardo livros de receitas, e alguns em português que ganhei. Ganham a biblioteca, os usuários, e minha casa, que ganha espaço e perde uma fonte de pó;
- desencanei completamente, se é que tinha como ser mais desencanada, com minha casa. Ainda me estresso com sujeira, mas com bagunça, nem pensar;
- desencanei com comida. Arroz de três dias é novo, repito o mesmo prato no jantar e no almoço, como qualquer coisa. Adoro a sensação de saber que posso morar em qualquer lugar do mundo e a comida não vai ser problema;
- aprendi sobre várias culturas diferentes da brasileira, e continuo aprendendo todos os dias a respeitar o que é diferente;
- aprendi a valorizar o verão;
- aprendi a me divertir no inverno;
- aprendi a amar o outono.
É muita mudança externa, mas a interna é maior ainda.
Estou realizada profissionalmente, e vi que isso é uma parte importante mas pequena da nossa vida. Não pode ser o objetivo.
Mudar de país dá sensação de não estar presa a lugar algum, mas de se tornar cidadã do mundo.
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